Por Roberto Ikeda
O Brasil parece ter desenvolvido uma curiosa especialidade: transformar problemas permanentes em promessas eleitorais renováveis. A pobreza atravessa gerações, a desigualdade resiste aos discursos e a prosperidade, anunciada a cada governo, continua sendo uma visitante que nunca chega para milhões de brasileiros.
Os números não permitem romantizar a realidade. Segundo a Serasa, em setembro de 2026, 84,2 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, acumulando R$ 597,4 bilhões em dívidas. Cada pessoa negativada devia, em média, R$ 7.093,83. Desde 2020, o número de inadimplentes cresceu 34,17%.
Mais revelador ainda: 20,32% dos débitos registrados envolvem serviços essenciais, como água, energia elétrica e gás.
Enquanto os discursos celebram avanços econômicos, milhões de famílias precisam escolher quais contas conseguirão pagar. Afinal, crescimento econômico que não alcança a vida cotidiana merece ser examinado com mais rigor do que entusiasmo.
O Nordeste expõe outra contradição histórica. Uma região extraordinária em recursos naturais, cultura e potencial produtivo, mas ainda marcada por graves deficiências estruturais. Segundo dados do Censo de 2022, analisados pela Fundação Getulio Vargas, apenas 76,3% da população nordestina utilizava a rede geral de distribuição de água como principal forma de abastecimento, contra 91% no Sudeste.
Como um país capaz de realizar obras grandiosas ainda não conseguiu garantir água e saneamento a todos os seus cidadãos?
Não faltam investimentos nem iniciativas importantes. Faltam resultados suficientes, continuidade administrativa e responsabilidade compartilhada entre governos. A cada mandato, mudam os slogans; os problemas, entretanto, demonstram uma fidelidade impressionante.
E aqui começa uma reflexão ainda mais desconfortável.
A assistência social é indispensável para proteger quem enfrenta dificuldades. Entretanto, quando o auxílio não vem acompanhado de educação, emprego, infraestrutura e oportunidades, existe o risco de transformar proteção temporária em dependência prolongada.
Ajudar alguém a caminhar é solidariedade. Não criar condições para que consiga caminhar sozinho é perpetuar uma necessidade que deveria ser superada.
Esse é o perigo das correntes invisíveis.
Não existem grades, carcereiros ou algemas de ferro. Existe uma prisão mais sutil: a falta de alternativas. O cidadão pode votar, trabalhar, constituir família e expressar opiniões, mas sua liberdade concreta diminui quando não possui condições econômicas para escolher o próprio destino.
É um encarceramento social sem sentença judicial. As correntes não aparecem nos pulsos, mas tornam-se visíveis quando alguém tenta romper o ciclo da necessidade e descobre quantas portas permanecem fechadas.
A própria estrutura familiar merece atenção. Leis destinadas a proteger direitos são necessárias, especialmente diante da violência, do abandono e das injustiças. Contudo, regras mal formuladas, insegurança jurídica e incentivos econômicos inadequados podem dificultar a formação e a estabilidade das famílias. Proteger indivíduos não deveria significar desestimular vínculos responsáveis, casamentos ou projetos de vida compartilhados.
Uma sociedade que deseja famílias fortalecidas precisa oferecer segurança, trabalho, moradia, educação e justiça equilibrada, não apenas multiplicar obrigações e burocracias.
O aspecto mais inquietante, porém, está na maneira como aprendemos a interpretar essa realidade.
Uma população que recebe informações sem desenvolver pensamento crítico corre o risco de confundir propaganda com resultado, benefício com desenvolvimento e fidelidade partidária com consciência política.
Não se trata de falta de inteligência. Trata-se da necessidade de uma educação que ensine a questionar, comparar informações e compreender consequências.
Quem não aprende a questionar as próprias correntes pode acabar defendendo quem promete administrá-las.
Eis a grande ironia: discursos que exaltam a liberdade podem conviver com políticas que não conseguem ampliar a autonomia. Isso não é exclusividade de uma ideologia. A contradição merece ser denunciada onde quer que apareça, seja à direita, à esquerda ou no centro.
O verdadeiro desenvolvimento não deveria ser medido apenas pelos benefícios que o Estado oferece, mas também pelas oportunidades que proporciona para que seus cidadãos conquistem independência, sem perder a proteção necessária nos momentos difíceis.
Porque a liberdade não desaparece somente quando é proibida. Ela também enfraquece quando faltam recursos, conhecimento e oportunidades para exercê-la.
E o mais preocupante é que as correntes invisíveis podem permanecer despercebidas durante anos. Quando finalmente se tornam visíveis, muitos descobrem que passaram boa parte da vida confundindo sobrevivência com liberdade.
Um governo verdadeiramente comprometido com o povo não deveria desejar cidadãos eternamente dependentes de suas promessas, mas cidadãos capazes de construir o próprio futuro.
Afinal, a maior demonstração de compromisso social não é ensinar uma população a agradecer eternamente pela ajuda recebida, mas criar condições para que ela conquiste a liberdade de não precisar mais pedi-la.
Roberto Ikeda
Base legal para a livre manifestação de opinião
A Constituição Federal do Brasil garante o direito à expressão e à crítica no debate público.
Conforme o Artigo 5º, inciso IV, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988,
“é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.”
E o Artigo 5º, inciso IX, estabelece que
“é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.”
Esses princípios são fundamentos essenciais de uma sociedade democrática, na qual o debate crítico e a cobrança por responsabilidade pública são parte legítima da construção de um país mais justo, transparente e próspero.

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