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domingo, 1 de novembro de 2026

O Perigo de Forçar a Queda da Selic

 


O Perigo de Forçar a Queda da Selic: Quando o Alívio de Hoje se Torna o Problema de Amanhã

Por Roberto Ikeda

Reduzir os juros é um desejo legítimo de qualquer sociedade que busca crescimento, investimentos e prosperidade. Mas existe uma diferença fundamental entre baixar a Selic porque a economia oferece condições para isso e tentar forçar sua redução sem resolver os problemas que justificam sua manutenção.

A economia não funciona por imposição. Ela responde à confiança, às expectativas e, sobretudo, às consequências das decisões tomadas.

Imagine que a Selic seja reduzida praticamente pela metade, enquanto a inflação permanece acima da meta, as contas públicas continuam pressionadas e os investidores demonstram preocupação com o futuro econômico do país.

Inicialmente, a medida poderia parecer uma excelente notícia. O crédito ficaria potencialmente mais acessível, o consumo seria estimulado e o governo poderia reduzir parte de suas despesas com juros. Entretanto, o que parece vantajoso no primeiro momento pode esconder consequências muito mais profundas.

O investidor, brasileiro ou estrangeiro, não observa apenas os juros oferecidos. Ele avalia o risco de perder poder de compra, a estabilidade da moeda e a segurança de seu patrimônio. Se perceber que a remuneração deixou de compensar esses riscos, poderá buscar alternativas em outros mercados.

E o que acontece quando aumenta a procura por dólares e diminui a confiança no real? Nossa moeda tende a perder valor.

Considere um exemplo simples: uma empresa que importa US$ 100 mil em equipamentos gastaria R$ 500 mil com o dólar a R$ 5,00. Se a cotação subisse para R$ 6,50, precisaria desembolsar R$ 650 mil pelos mesmos equipamentos. São R$ 150 mil adicionais sem qualquer ganho de produtividade. Trata-se de uma simulação, não de uma previsão cambial.

Esse aumento pode chegar aos preços de medicamentos, combustíveis, alimentos, máquinas e inúmeros produtos que dependem de insumos importados. O consumidor, que inicialmente comemorou a redução dos juros, poderá descobrir que seu salário compra menos do que antes.

Há ainda outra contradição pouco compreendida: a Selic pode cair enquanto os juros dos financiamentos de longo prazo permanecem elevados ou até aumentam. Isso acontece porque os bancos e investidores não consideram apenas a taxa básica, mas também a inflação esperada, a inadimplência e os riscos futuros.

O mesmo raciocínio vale para a dívida pública. Reduzir a Selic pode aliviar parte das despesas do governo, mas, se a medida comprometer a confiança, o mercado poderá exigir juros maiores para financiar novos títulos. A economia obtida hoje pode ser parcialmente anulada pelos custos de amanhã.

É como esticar um elástico além de sua resistência. Durante algum tempo, conseguimos manter a tensão sob controle. Mas, quando a pressão acumulada se torna insustentável, a reação pode ser intensa. Na economia, isso pode significar inflação persistente, desvalorização cambial e a necessidade de elevar novamente os juros, eventualmente de maneira mais agressiva.

Isso não significa defender juros elevados indefinidamente. Pelo contrário. Juros altos também prejudicam empresas, famílias e investimentos. O Brasil precisa de taxas menores, mas sustentadas por inflação controlada, responsabilidade fiscal, produtividade e credibilidade institucional.

O verdadeiro desafio não é convencer o mercado de que os juros devem cair. É construir condições para que possam permanecer baixos.

Precisamos compreender que estimular o consumo não é o mesmo que gerar riqueza, assim como facilitar o crédito não significa necessariamente aumentar o poder de compra. Uma economia saudável depende de produzir mais, investir melhor, administrar seus recursos com responsabilidade e preservar a confiança em suas instituições.

Governos passam, discursos mudam e decisões políticas podem produzir entusiasmo imediato. Entretanto, as consequências econômicas não desaparecem com o encerramento de um mandato. Elas permanecem na dívida pública, nos preços, nos investimentos e, principalmente, na vida das famílias.

Por isso, antes de comemorar qualquer redução expressiva da Selic, deveríamos fazer uma pergunta essencial: estamos realmente eliminando as causas dos juros elevados ou apenas tentando esconder seus sintomas?

A resposta pode determinar a diferença entre crescimento sustentável e prosperidade passageira.

Porque a economia não se curva à vontade de governantes, nem recompensa boas intenções sem fundamentos. Ela responde à realidade. E quando tentamos contrariá-la, a conta pode demorar a chegar, mas seus efeitos acabam alcançando toda a sociedade.

Roberto Ikeda


Base legal para a livre manifestação de opinião

A Constituição Federal do Brasil garante o direito à expressão e à crítica no debate público.

Conforme o Artigo 5º, inciso IV, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988,
“é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato.”

E o Artigo 5º, inciso IX, estabelece que
“é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.”

Esses princípios são fundamentos essenciais de uma sociedade democrática, na qual o debate crítico e a cobrança por responsabilidade pública são parte legítima da construção de um país mais justo, transparente e próspero. 



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